Hoje o ato violento da polícia de Paris contra manifestantes argelinos, com seus 300 mortos, completa 50 anos, assim como ano passado outro massacre, qua aconteceu em 21 de março de 1960 na África do Sul, conhecido como "Massacre de Sharpeville" completou 50 anos.
Há certa semelhança entre os dois fatos. Em Joanesburgo a polícia abriu fogo contra milhares de manisfestantes negros que protestavam contra o Apartheid (a discriminatória Lei de Passe, criada pelos brancos, conhecidos como Africâners). Em Paris a polícia fez o mesmo com milhares de argelinos que lutavam para protestar contra os numerosos atos de violência cometidos pela polícia contra a comunidade argelina, e também para lutar por uma Argélia livre de seu colonizador (os franceses.)
Não sei se as semelhanças terminam aí, uma vez que a manifestação sul-africana foi pacífica e, o que chegou até nós sobre o massacre de Paris foi que os argelinos eram terroristas e que praticavam inúmeros casos de violência contra os franceses. As informações que conhecemos nos foram dadas pelas fontes do governo que, em pouco tempo "enterrou" o assunto, portanto não podemos saber o que é verdade.
No final da tarde do dia 17 de outubro um grupo estimado entre 20 e 30 mil pessoas se encaminhou para o centro de Paris. Os organizadores pediram um ato pacífico, e que os manifestantes permanecessem calmos diante da provocação da polícia. As forças da polícia sob o comando de Maurice Papon.
Papon apresentou-se como herói que estava apenas "defendendo Paris", sendo assim "uma missão pessoal de De Gaulle". O presidente De Gaulle tentava de todas as formas conter os protestos para a libertação da Argélia, o que gerou a "guerra suja", onde os dois lados empregavam muita violência. Muitos civis franceses morreram durante esse período, e foi esse medo que Papon explorou.
Os cadáveres foram jogados no Sena, enquanto muitos carros levavam vários manifestantes sobreviventes para a delegacia.
A imprensa da época retratava os argelinos como terroristas, uma ameaça à população francesa, o que fez com que o público não visse o massacre como um ato bárbaro, mas como uma ação necessária para a proteção dos franceses. Isso gerou a indiferença da população francesa, que só foi reforçada com o subsequente silêncio das autoridades. Os argelinos se tornaram uma espécie de "bode espiatório", assim como acontece hoje com os muçulmanos.
A política de Sarkozy não é muito diferente da de De Gaulle, apenas os tempos mudaram, a Argélia não é mais colônia, e sob influência norte-americana a atenção se voltou para a população do Oriente Médio.
Após se tornar presidente, Sarkozy se esforçou em criar um Ministério da Imigração, da Integração e da Identidade
nacional, iniciativa que foi vista como uma ação para
isolar os muçulmanos franceses, fazendo crescer a xenofobia dos franceses, assim como há 50 anos.
Nicolas Sarkozy (aliás, ele mesmo filho de imigrantes!) segue calado sobre esse assunto. As poucas cidades que decidiram lembrar a data (Nanterre, Argenteuil, Asnières, Gennevilliers, Colombes, etc) eram o lar de muitos manifestantes. Isso acarretou a menifestação de alguns políticos como Jean-Christophe Fromantin, prefeito da cidade de Neully, que se recusa a participar.
"Cette commémoration n’a pas lieu d’être. Souvenons-nous que les
gens du FLN étaient des terroristes à l’époque. Coupables d’assassinats
de dizaines de milliers de harkis et d’attentats contre nos forces de
police. C’est trop facile de transformer l’histoire cinquante ans après" (Essa comemoração não deveria acontecer. Lembremos que os integrantes do FLN - Front de Libération National - eram terroristas. Culpados de milhares de assassinatos de harkis e atentados contra a polícia. É muito fácil transformar a história 50 anos depois.) disse Nicole Goueta, ex-prefeita de Colombes e conselheira geral des Hauts-de-Seine.
Muito além da comemoração (ou não) da data está a discussão sobre as políticas dos "países ricos" contra todos aqueles que vêm "fazer o mal" contra a sociedade européia/americana, e como essa política desenvolve a xenofobia na população em geral. Nós brasileiros, latino-americanos em geral, também sofremos com esse tipo de política. As pessoas, apenas por terem a "infelicidade" de pertencer a uma determinada "raça" devem sofrer as consequências?
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