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Festival Varilux - O dia da saia

Como havia escrito em uma postagem anterior deixei o blog um pouco de lado e, por isso, não dei dicas sobre eventos culturais francófonos. Mas hoje, após ter acabado o Festival Varilux, farei comentários sobre os filmes que assisti. Vou começar pelo "O dia da saia" (La journée de la jupe - FRA/2008)

O filme mostra um lado da sociedade francesa contemporânea, ultimamente bastante explorado na arte, mas ainda pouco visto por aqui. Talvez porque ainda tenhamos a idéia de que cinema francês é sinônimo absoluto de cinema autoral. Esse espaço se ampliou... bem, mas isso é assunto para outro artigo!
A presença de árabes na França é realmente muito grande e, como acontece na maioria dos casos de imigração de pessoas de regiões mais pobres para mais ricas, essa população se instala nas periferias criando sociedades mais ou menos herméticas; o que aumenta muito em casos de países com mais tabus relacionados ao preconceito racial.

O filme tem como ponto de partida uma escola de periferia onde a grande maioria dos estudantes é de origem muçulmana; um local com muita violência, onde o que dita as regras é a lei do mais forte.
Uma professora, interpretada por Isabelle Adjani (que merecidamente recebeu o César de melhor atriz) tenta inutilmente dar uma aula sobre Molière a seus alunos adolescentes, sofrendo sempre com a intimidação e o desrespeito de seus alunos, principalmente pelo fato de Sonia - a professora - usar saia. Ela havia sido alertada pelo diretor da escola sobre o comportamento dos alunos extremamente machistas ao verem uma mulher de saia.
O problema se agrava quando a professora descobre um revolver na mochila de um dos alunos. A professora, ao tentar pegar a arma a dispara acidentalmente, o que causa desespero. Em um ato desesperado ela faz os alunos de reféns. É a partir daí que os problemas sociais franceses vêm à tona com toda a força e crueza escancarando a ignorância (os alunos que se orgulham de serem muçulmanos mal conhecem o Corão) e o preconceito (árabes usando contra judeus a mesma forma de preconceito da qual eles se sentem vítimas) dos adolescentes. Duas situações envoltas nesses preconceitos fazem a história mudar de rumo. Quando o preconceito contra a mulher aparece faz com que parte dos reféns "mude de campo". As meninas deixam de ser alunas para se unirem como mulheres. Tudo muda novamente quando eles ouvem a professora falar em árabe com seus pais.

O filme foi muito bem realizado e ganhou enorme destaque, levando-se em conta que foi uma produção "modesta" feita para a televisão francesa. Vale a pena vê-lo. É uma imagem contundente sobre uma França que os turistas não conhecem.

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